Jul 21, 2017

Promotor de Justiça comanda censura e define manchete de jornal

O ano é 2017, mas a história é digna de relatos comuns aos tempos da Ditadura Militar no Brasil. Na última sexta-feira, 28 de abril, quando a principal pauta do dia era a greve geral convocada por centrais sindicais, a redação do Cruzeiro do Sul, impresso centenário sediado em Sorocaba (SP), foi surpreendida pelo promotor de Justiça da Vara da Infância e Juventude local, Antônio Domingues Farto Neto, que comandou um episódio de censura e pautou a edição do dia seguinte do veículo. Além de promotor, Farto Neto é membro do Conselho Consultivo da Fundação Ubaldino do Amaral (FUA), entidade mantenedora do jornal. A denúncia foi feita pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP) e a reportagem do Portal Comunique-se buscou entender o que aconteceu na sede da empresa de mídia.

Fontes informaram à reportagem do Portal Comunique-se que naquela sexta-feira, a redação do Cruzeiro do Sul trabalhava na cobertura da greve, como já estava fazendo ao longo da semana, quando Farto Neto comandou o episódio de censura. O membro do conselho esteve na sede do jornal acompanhado de alguns integrantes de outros conselhos da FUA, entre eles Valdir Euclides Buffo Junior, César Augusto Ferraz dos Santos, Tiberany Ferraz dos Santos e o presidente da FUNDEC, Luiz Antônio Zamuner. Na ocasião, o promotor agrediu verbalmente os profissionais da casa, afirmando que o êxito da greve geral era responsabilidade da cobertura que o jornal Cruzeiro do Sul vinha fazendo.

De acordo com a denúncia do sindicato, o promotor disse que era preciso “limpar o desserviço feito” e criar uma “agenda positiva” e, para isso, era primordial engrandecer o trabalho da Polícia Militar de São Paulo e da Guarda Civil Municipal de Sorocaba. Assim, Farto Neto definiu qual seria a manchete da edição seguinte do impresso. “Paralisação prejudica o trabalhador sorocabano” foi a chamada imposta. Ele ainda determinou as fontes que seriam entrevistadas: o coronel Antônio Valdir Gonçalves Filho, comandante do Comando de Policiamento do Interior (CPI/7), e o atual secretário de Segurança e Defesa Civil de Sorocaba, José Augusto de Barros Pupin.

O caso de assédio e censura aconteceu na ausência de duas importantes peças dentro do Cruzeiro: o editor-chefe José Carlos Fineis – afastado por motivos de saúde – e o presidente do Conselho Administrativo da FUA e diretor-presidente do jornal, José Augusto Marinho Mauad (Gugo), que se licenciou da presidência por alguns dias, passando o bastão para Francisco Antônio Pinto (Chicão). As fontes entrevistadas pela reportagem do Portal Comunique-se contaram que Francisco tinha autonomia para ir contra a situação, mas acabou sendo intimidado de modo que não conseguiu reverter a decisão autoritária do promotor.

A situação pegou a redação de surpresa e, segundo a apuração do portal, todos ficaram estarrecidos. Até o momento, a Fundação Ubaldino do Amaral não se pronunciou sobre o assunto, mas o que se sabe é que a entidade não compactua com esse tipo de acontecimento, sendo, portanto, uma atitude individual e isolada de quem censurou. Os jornalistas do Cruzeiro do Sul, inclusive, sempre puderam trabalhar com total liberdade, sem interferência dos conselhos na cobertura jornalística.

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